Resumo da Dissertação de Mestrado em Bioconstrução IEB “O Adobe de Cal contributo para a Biologia do Habitat” de Ana Perdigão Antunes, aluna da 29ª Edição.
A arquitetura é, antes de mais, uma forma de relacionar o corpo e o ambiente: cada material que escolhemos, cada parede que erguemos, define um modo particular de respirar, de sentir o clima e de pertencer a um lugar. É neste reconhecimento que se ancora a urgência de repensar a construção contemporânea, hoje atravessada por uma transformação estrutural — a redução da energia incorporada, a diminuição das emissões de CO2 associadas aos materiais e a integração de princípios de circularidade tornaram-se exigências incontornáveis, que deslocam o critério da escolha construtiva da resistência e do custo para o impacto climático, a compatibilidade ecológica e a qualidade do ambiente interior.
Neste enquadramento, o adobe de cal da região de Aveiro — material vernacular — recupera a atualidade não pela sua condição patrimonial, mas pelo conjunto raro de qualidades que reúne: origem local, baixa transformação, reversibilidade no fim de vida, contributo para a salubridade dos espaços e capacidade reconhecida de regular passivamente o clima interior.
O presente trabalho propõe uma avaliação integrada do adobe de cal de Aveiro a partir do quadro conceptual da Biologia do Habitat, assente em revisão bibliográfica sistemática e em extrapolações fundamentadas a partir de materiais análogos, organiza-se em quatro grandes dimensões: clima interno e salubridade, estímulo sensorial e bem-estar, impacto ambiental e ciclo de vida, e enquadramento ecossocial. Esta abordagem permitiu avaliar o adobe de cal não apenas como material de construção, mas como parte de um sistema de habitat mais amplo, onde matéria, corpo, clima interior, saúde e ambiente estão interligados.
O estudo explora uma dimensão ainda pouco estudada: a relação entre as características do adobe de cal e a qualidade do ambiente interior, bem como a compatibilidade ecológica e sensorial dos espaços habitacionais.
Clima Interior e Salubridade
A matriz mineral, porosa e higroscópica do adobe de cal, contribui para a regulação passiva da humidade relativa interior, reduzindo o risco de condensações, bolores e ambientes excessivamente secos ou húmidos. A composição mineral simples — terra, cal e água, sem ligantes orgânicos sintéticos — torna o material classificado como «VOC-free», ao contrário de muitos materiais sintéticos ou industrializados. A mineralogia argilosa (illite, caulinite) confere ainda capacidade de adsorção de compostos orgânicos voláteis e iões metálicos, funcionando como filtro natural passivo, embora careça de confirmação experimental específica para os adobes de Aveiro.
No domínio higrotérmico, destaca-se pela combinação entre massa térmica, permeabilidade ao vapor e capacidade de armazenamento de humidade. Embora não seja isolante no sentido convencional, a elevada inércia térmica, contribui para estabilizar temperatura e humidade interiores, favorecendo estratégias passivas e bioclimáticas.
Pela densidade e composição mineral sem metais ou componentes sintéticos condutores, o adobe apresenta permeabilidade à radiação de baixa frequência superior à do betão armado e baixa radioatividade natural. Comparado com tijolo cerâmico, betão armado e betão celular autoclavado (BCA), destaca-se como o único material que combina alta inércia térmica, regulação higroscópica significativa, ausência de emissões e circularidade total, sendo o de melhor desempenho holístico entre os comparados.
Estímulo Sensorial e Bem-estar
A dimensão sensorial expressa-se pelas texturas, cores, espessura das paredes e a relação do material com a luz natural, contribuindo para ambientes mais acolhedores, orgânicos e emocionalmente equilibrados. A plasticidade da massa de terra e cal favorece formas suaves e superfícies irregulares, aproximando-se de princípios de biofilia e reduzindo a carga cognitiva associada a ambientes excessivamente padronizados. O adobe de cal não é apenas uma solução técnica; é também um suporte de memória, identidade e vínculo ao lugar.
Impacto Ambiental e Ciclo de Vida
O adobe de cal apresenta um ciclo de vida favorável: utiliza recursos locais, de baixa transformação industrial, pode ser reutilizado ou reciclado e, no fim de vida, regressa ao ciclo natural sem gerar resíduos. A elevada durabilidade, a manutenção simples e o baixo impacto ambiental de produção reforçam a sua circularidade face a materiais industriais.
Enquadramento Ecossocial
O adobe de cal reforça a identidade construtiva de Aveiro, hoje em risco pela perda de saber-fazer local. A sua revalorização pode estimular uma cadeia produtiva local, recuperar saberes tradicionais e apoiar a reabilitação compatível do vasto património em adobe existente na região.
Conclui-se que o adobe de cal reúne um conjunto raro de qualidades — salubridade, conforto, circularidade, identidade territorial e baixo impacto ambiental — posicionando-se como o material de envolvente de melhor desempenho holístico entre os analisados. Revalorizá-lo implica preservar a técnica vernacular e reinterpretá-la em projetos atuais, reforçando o argumento para a incorporação de sistemas baseados na terra nos debates sobre construção em Portugal, como estratégia para a saúde do habitat e a redução do impacto ambiental.